p.o'sagae,sp Eu fui e voltarei. A exposição de ilustrações de livros
Linhas de Histórias que o SESC-Belenzinho oferece, até 28 de agosto, em São Paulo, é uma deliciosa viagem através de reproduções de desenhos, rascunhos, originais e instalações pelo imaginário visual da literatura infantil brasileira dos últimos 40 anos. Ontem aconteceu a abertura da mostra e, entre encontros e reencontros com pessoas que aprendi a admirar “dentro” dos livros, obviamente não deu para ver tudo o que ali está ao alcance do olhar.

Em um espaço bastante amplo, a exposição divide 53 ilustradores em seis corredores temáticos. O primeiro é dedicado ao livro-imagem e estão, logo à entrada, reproduções das delicadas páginas de
O caminho do caracol, de Helena Alexandrino. Os demais corredores exibem trabalhos na linha do humor, os experimentais, ilustrações que resgatam a tradição do artesanato, a cultura brasileira e, por fim, onde cheguei puxado pelas mãos de Elisabeth Teixeira, os clássicos e os contos de fadas.
Passei mais tempo no corredor de cultura brasileira. Quatro gaveteiros tipo mapoteca ali estão: as pessoas debruçavam-se para espiar. A primeira reação foi estranhamento, afinal, pareciam analisar... Uma tíbia, o úmero, toda a arcada óssea de algum ilustrador? Nada disso, esse é um espaço para quem gosta de outras arqueologias, encontrando nas gavetas, um rascunho, estudos, desenhos que se modificam traço a traço, a arte final e a página impressa, permitindo que os visitantes “curtam” o processo de criação de alguns ilustradores, como Roger Mello, Nelson Cruz, Maurício Negro, Pedro Rafael, entre outros... E foi muito bom rever o material de Ciça Fittipaldi que, em 1992, creio, o SESC Consolação exibiu em seu saguão de entrada.
Dupla viagem, nas etapas daquilo que os livros escondem e naquilo que o tempo congelado em cada fragmento de papel revela. O quinto corredor é passagem para curiosos e pesquisadores do que se convencionou chamar de crítica genética.
Em outro espaço, ficam as instalações. Brincando com as ideias e as imagens dos livros, você pode passear sobre as pegadas de Juarez Machado (início e final do
Ida e volta em cima do piso de vidro, acima da piscina do SESC!), ou adentrar na caixa de cores que, de alguma forma endurecida e fria, evoca o desterro de
Flicts rumo a lua. Ou postar-se e portar-se como dentro das páginas de
O rei de quase tudo, com desenhos de Eliardo França. Ou girar, girar, girar os zootrópios com a Bruxinha, de Eva Furnari ;-) Ou capturar o movimento das cortinas translúcidas que reproduzem a leveza dos
Cânticos de Angela-Lago. Todas essas experiências, ainda que tecnicamente simplórias ou distantes do livro em seu formato convencional de papel, são portas para reconhecermos a transitoriedade do suporte físico do códex e a necessidade de investigação sobre os ambientes imersivos para a criação ficcional. Que venham novos livros, ou outras coisas, não sei... O que resiste é um gesto invisível de cada artista.
Por falar em livros... Senti a falta deles espalhados pela exposição. Gosto muito de ver, ler, comparar o desenho, o original, a arte com a reprodução impressa no lugar que lhe coube na página. Só assim faz sentindo pensar em ilustração. Também senti a falta de muitos nomes nesse panorama do livro ilustrado brasileiro... e de um catálogo gorducho. Nada disso particularmente representa crítica ou azedume. Apenas palpites. E é bem mais um motivo para imaginarmos as
Linhas de Histórias em sua segunda edição no próximo ano ;-) ou biênio. A curadoria artística e o investimento do SESC, nesse setor, nos dão bastante alegria! São Paulo
anda carente de eventos de relevância cultural no que toca a literatura para crianças e seus autores.
Vamos lá prestigiar!Ah, e as fotos?
Elas estarão espalhadas na rede, logo mais, tenho certeza.
Então,
linkarei, linkarei, linkarei...
Não deixe de ver a
[reportagem videográfica] de Cristiane Rogério.